Dossiês de 2024: Chamada para Submissões

2023-11-28

Cinema e Colonialismo

Rebeca 25 (v. 13, n. 1, jan./jun., 2024) 

Prazo final de submissões 23/02/2024

Em seu estudo clínico publicado sob o nome de Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), o psiquiatra martinicano Frantz Fanon afirma que “todo povo colonizado – isto é, todo povo em cujo seio se originou um complexo de inferioridade em decorrência do sepultamento da originalidade cultural local – se vê confrontado com a linguagem da nação civilizadora, quer dizer, da cultura metropolitana” (2020, p. 32). A linguagem cinematográfica não escapou dos conflitos e apagamentos decorrentes da invasão de territórios, da exploração econômica, das guerras, de genocídios e extermínios promovidos pelos empreendimentos coloniais ao longo da história. Se, por um lado, o sintomático “complexo de inferioridade” enfatizado por Fanon impulsionou criações comprometidas com o reforço estético e discursivo do colonizador, por outro, também cineastas tensionaram a dominação cultural metropolitana e suas consequências para produzir contradiscursos e inventar novas estéticas e possibilidades.

Já nos anos 1960, Glauber Rocha, em seu manifesto Estética da Fome, colocava a violência no centro da sua proposta estética para afirmar o oprimido e o colonizado culturalmente. “Somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. (...) Foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino” (1981, p. 32). Quase vinte anos depois, ao assistir Terra em Transe (1967), também de Glauber Rocha, Gilles Deleuze lança mão de um termo já caducado desde o fim da Guerra Fria – o Terceiro Mundo – para afirmar o cinema desses países como o único capaz de inventar um povo – povo este que estaria ausente no cinema moderno europeu e estadunidense. “No momento em que o senhor colonizador proclama ‘nunca houve povo aqui’, o povo que falta é um devir, ele se inventa, nas favelas e nos campos, ou nos guetos, com novas condições de luta, para as quais uma arte necessariamente política tem de contribuir” (2005, p. 261).

De lá para cá, o debate sobre colonialismo no cinema vem avançando a passos largos devido, em parte, à consolidação de escolas de pensamento pós-coloniais e decoloniais que reivindicam, ainda que de modos distintos, epistemologias outras, não baseadas no olhar eurocêntrico, antropocêntrico, masculino, branco e judaico-cristão. Tais epistemologias reforçam sua presença, por exemplo, por meio de gêneros como as narrativas de testemunhos e os relatos autobiográficos, que esgarçam as estruturas discursivas de poder dos documentos ditos oficiais. Esses gêneros, que, segundo Gagnebin (2006), tornam-se tristemente recorrentes na literatura do século XX, em particular (mas não só), no contexto da Shoah, passam a estar refletidos também em expressões cinematográficas.

A temática do trauma, predominante na reflexão sobre a memória contemporânea e guerras de independência colonial, advém também com a ascensão de novos gêneros no cinema, como o cinema de found footage, de arquivo, o cinema amador e autobiográfico. De acordo com Roger Odin (2012), é a partir dos anos 1980 que a Associação Internacional (Inédits) foi criada reunindo os interessados nos filmes de família como documentos. Já a Federação Internacional de Arquivo de Filmes (fiaf) introduziu o assunto do filme amador como documento em duas de suas conferências (em 1984 e 1988) e dedicou uma edição de seu periódico a esse tópico.

Tal movimento no cinema – e na cultura – em direção aos testemunhos relaciona-se com aquilo que o filósofo alemão Andreas Huyssen (2000) identifica como uma quase obsessão pela retenção da memória, desenvolvida nas sociedades ocidentais especialmente com os depoimentos dos sobreviventes do Holocausto e dos participantes de movimentos pela descolonização dos anos 1960. São novos discursos, novos testemunhos e olhares alternativos capazes de revisar a “História Oficial” com “H” maiúsculo. Há um crescente “desejo de memória”, principal sintoma de um mal-estar contemporâneo, resultado de uma sobrecarga informacional e perceptiva da aceleração cultural que vivemos. Parte das mudanças do contemporâneo, a transição da fotografia para a sua reciclagem digital trouxe, ainda de acordo com o filósofo (2014, p. 23), um novo retorno "aurático", já assinalado por Walter Benjamin (1985) como perda quando da passagem da arte pictórica para a sua reprodução mecânica. Paradoxalmente, a digitalização trouxe de volta à fotografia fotoquímica a “aura” da película “original”.

Semelhante tendência será observada no cinema por Laura Marks no livro The Skin of the Film (2000, pp. 80-96). Ao analisar filmes documentários e autobiográficos feitos por imigrantes, exilados ou refugiados, ela identifica a presença de objetos “auráticos” – objetos trazidos em viagens migratórias, que atravessaram oceanos, e que são ressignificados e se tornam “únicos” e fetichizados por carregarem em si toda carga histórica de uma cultura. O paralelo entre os conceitos de aura e fetiche são aplicados por Marks à tendência contemporânea de artistas e cineastas em retornarem às películas fotoquímicas e a materialidade analógica (como o Super 8). Imagens envelhecidas com marcas do tempo impregnadas na sua superfície denotam o uso e manipulação destas películas – um contato físico com algo ou alguém de um passado distante. Assim, por terem entrado em contato com uma “origem”, seriam capazes de evocar a volta da “aura” benjaminiana. O retorno de estéticas analógicas seria, portanto, mais um capítulo e desdobramento possível das investigações pós-coloniais das imagens.

Mais recentemente, o filósofo camaronês Achille Mbembe (2020) em seu texto O que fazer com as estátuas e monumentos coloniais? afirma que as estátuas coloniais não devem ser destruídas, mas sim levadas para um espaço outro onde seriam expostas e contextualizadas historicamente com um olhar decolonial, como uma espécie de museu do falido colonialismo. A saída para os símbolos da violência colonial não seria por uma via negativa-iconoclasta, mas sim por meio da reelaboração simbólica e contestação dos discursos do "vencedor" que ainda persistem na cultura dominante. Esta premissa também tem sido observada no cinema de cineastas experimentais atuais, tais como Susana de Sousa Dias e John Akomfrah, que reelaboram em novas narrativas os arquivos coloniais. 

Esta edição da revista Rebeca, portanto, tem como objetivo reunir reflexões em torno do colonialismo no cinema do Brasil e do mundo com um viés estético, ético e político. Convidamos

autor_s interessad_s em analisar longas ou curtas-metragens, documentários ou ficcionais, em interação com o debate acerca do colonialismo seja nos campos das artes, da história, da filosofia, das ciências sociais, entre outros, para a produção de artigos que reflitam, entre outros assuntos, sobre identidades, testemunhos, novas autorias, contradiscursos, território etc. Dentre as muitas possibilidades temáticas que podem compreender este dossiê, daremos ênfase aos seguintes temas:

- Olhares anticoloniais, pós-coloniais e decoloniais sobre o cinema;

- Cinema, colonialismo e feminismo;

- A reelaboração dos arquivos coloniais no cinema de found footage e/ou no cinema de arquivo;

- Cinema etnográfico: o olhar do outro e o olhar de si;

- O cinema de autoria coletiva e o perspectivismo ameríndio;

- O cinema negro da diáspora;

- Cinema de testemunho, amador, autobiográfico e/ou de acervos de família;

- Cinema, colonialismo e outras artes;

- O debate sobre o colonialismo através da linguagem experimental;

- Perspectivas históricas sobre o cinema e o colonialismo;

- Desigualdades e persistências coloniais no mercado e na distribuição cinematográficos;

Editoras convidadas:

Bárbara Bergamaschi – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil

Bruna Carolina Carvalho – Universidade do Porto, Portugal

Michele Salles – Universidade Federal do Rio de Janeiro / Universidade Estadual de Campinas, Brasil

Victa de Carvalho – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil

Referências:  

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, in: Obras Escolhidas 1: Magia e Técnica, Arte e Política, trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

DELEUZE, Gilles. Cinéma 2L’Image-Temps; ed. ut.: A Imagem-Tempo: Cinema 2, trad. Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2005.

FANON, Frantz. Peau Noire, Masques Blancs; ed. ut.: Pele Negra, Máscaras Brancas, trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela Memória: arquitetura, monumentos e mídia. Rio de Janeiro. Coleção Agenda do Milênio: Editora UCAM, Aeroplano, 2000.

______. Culturas do Passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.

MARKS, Laura. The skin of the Film. Intercultural Cinema, Embodiment and the Senses. Durham and London: Duke University Press, 2000.

MBEMBE, Achille. O que fazer com as estátuas e monumentos coloniais? Revista Rosa, n. 2, 10 novembro de 2020. São Paulo, SP, Brasil. Disponível em: https://revistarosa.com.

ODIN, Roger. In: REBELLE, Patrícia e SAMPAIO, Rafael (Org.) Péter Forgács, Arquitetura da Memória. Catálogo. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 1ª. Ed., 2012.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: A Colonialidade do Saber: Eurocentrismo e Ciências Sociais. Perspectivas Latino-Americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo; ed. ut.: Rio de Janeiro, Alhambra/ Embrafilme, 1981.

 

50 anos de Iracema, uma transa amazônica: contradiscursos e reinvenções estéticas  e estilísticas no cinema brasileiro

Rebeca 26 (v. 13, n. 2, jul./dez., 2024)

Prazo final de submissões 24/06/2024

Na história do cinema brasileiro, por circunstâncias diversas, alguns filmes tornam-se referências emblemáticas de uma época e/ou são redescobertos conforme o tempo passa. No caso de Iracema, uma transa amazônica, que em 2024 completa 50 anos, é possível dizer que ambas as situações são totalmente pertinentes. E mais: este híbrido de documentário e ficção, codirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, que acumulou censura e prêmios em sua trajetória, continua tendo uma atualidade espantosa.

Filmado em um território de segurança nacional controlado pelos militares, a obra denuncia a ilusão ufanista que era emblema da propaganda oficial do regime, produzindo  imagens de uma experiência até então desconhecida pela maioria dos brasileiros. Sua ousadia temática, as escolhas estéticas e estilísticas, a capacidade de extrair o que há de mais pungente de seus personagens, e como confrontou o que se apresentava como “milagre econômico brasileiro” instiga diálogos e suscita reflexões até hoje, especialmente pela relevância que a Amazônia tem para sobrevivência do planeta.

Considerando, portanto, o legado de Iracema, uma transa amazônica, inclusive sobre a filmografia de seus diretores, esse dossiê propõe uma homenagem a esta obra emblemática do cinema brasileiro. Por este caminho, Rebeca espera contribuições que se  pautem não só pelas múltiplas possibilidades de leituras e/ou evocações e/ou confrontos e/ou quaisquer outros significativos olhares que esse produto fílmico provoca, como textos que se debrucem sobre tantas outras obras que caminham no contra fluxo da história  oficial, em diálogo (ou inspirados) por Iracema. Lembrando Benjamin: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie” (2005,  apud Löwy, p. 70).

Editora e editores convidados:

Alex Ferreira Damasceno – Universidade Federal do Pará, Brasil

Denise Tavares – Universidade Federal Fluminense, Brasil

Jamer Guterres de Mello - Universidade Anhembi Morumbi, Brasil

Referência:

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin:  aviso de incêndio. São Paulo: Boitempo, 2005.