O estilo de José Mojica Marins em O despertar da besta (1969) como dispositivo de crítica social
DOI :
https://doi.org/10.22475/rebeca.v15n2.1460Mots-clés :
Estilo Cinematográfico, Cinema de Horror, Crítica Social, José Mojica Marins.Résumé
O presente artigo analisa o estilo de José Mojica Marins em O despertar da besta (1969), compreendendo-o como elemento constitutivo de crítica social. A partir da problematização do conceito de estilo, o texto mobiliza contribuições de David Bordwell (2008, 2013), Meyer Schapiro (1953) e Erwin Panofsky (1991, 1995) para defini-lo como um sistema expressivo de escolhas técnicas e formais, historicamente situado, que organiza a materialidade do filme e produz efeitos de sentido. Em diálogo com Rodrigo Carreiro (2013, 2019), Lúcio Piedade (2002) e Laura Cánepa (2008), o estudo reconhece na obra do cineasta um horror autoral, marcado por um estilo peculiar que explora a fusão entre cultura popular e erudita, o grotesco e o excesso performático. A reflexão também incorpora as leituras de Giancarlo Couto e Carlos Gerbase (2021), articuladas às noções de monstro e anormal, para compreender a figura de Zé do Caixão como síntese do desvio moral e da transgressão social. O objetivo é identificar como a obra de Mojica, marcada pela heterogeneidade de gêneros, precariedade produtiva e sincretismo cultural, consolida um conjunto recorrente de procedimentos visuais e sonoros que, em O despertar da besta, articulam-se a uma estrutura metalinguística, à representação da decadência moral urbana e ironizam discursos normativos. Conclui-se que o estilo de Mojica, longe de meramente ornamental, constitui o próprio mecanismo crítico da obra: ao apostar no excesso, na teatralidade e na ambiguidade enunciativa, Mojica transforma o horror em dispositivo de reflexão sobre uma hipocrisia moral e os dispositivos de controle vigentes no contexto da ditadura militar.
Téléchargements
Références
ABREU, Nuno Cesar. Boca do lixo: cinema e classes populares. Campinas: Editora Unicamp, 2006.
À MEIA-NOITE levarei sua alma. Direção: José Mojica Marins. Produção: Geraldo Marins, Ilídio Martins e Arildo Iruam. Brasil, 1964. 81min, sonoro, preto e branco.
BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998.
BORDWELL, David. On the history of film style. Cambridge: Harvard University Press, 1997.
BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas: Papirus Editora, 2008.
BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.
CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? Uma história do horror no cinema brasileiro. 2008. Tese (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008.
CARDENUTO, Reinaldo. Os anos 1960 em revisão: um depoimento de Maurice Capovilla. Rebeca: Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 2, n. 2, p. 236-55, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.22475/rebeca.v2n2.311. Acesso em: 29 mai. 2026.
CARLOS, Erasmo; CARLOS, Roberto. Se você pensa. Rio de Janeiro: CBS, 1968.
CARREIRO, Rodrigo. O problema do estilo na obra de José Mojica Marins. Galáxia,n. 26, p. 98-109, 2013. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/13225. Acesso em: 02 dez. 2025.
CARREIRO, Rodrigo. Por uma teoria do som no cinema de horror. Ícone, Recife, v. 17, n. 3, p. 251-269, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.34176/icone.v17i3.240271. Acesso em: 13 dez. 2025.
CARROLL, Nöel. A filosofia do horror ou paradoxo do coração. Campinas: Papirus Editora, 1999.
CHOPIN, Frédéric François. Piano sonata no. 2 in B-Flat minor, op. 35. Leipzig: Breitkopf und Härtel, 1840.
CLOVER, Carol. Men, women, and chainsaws: gender in the modern horror film.Londres: British Film Institute, 1992.
COUTO, Giancarlo; GERBASE, Carlos. O monstro e os anormais na filmografia de José Mojica Marins. Aniki,v. 8, n. 1, p. 55-79, 2021. Disponível em:https://doi.org/10.14591/aniki.v8n1.693. Acesso em: 10 dez.2025.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva, 1976.
ESTA NOITE encarnarei no teu cadáver. Direção: José Mojica Marins. Produção: Augusto Pereira. Brasil, 1967. 108min, sonoro, colorido.
FOUCAULT, Michel. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975).São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LAVIN, Irving. Introduction. In: LAVIN, Irving (ed.). Three Essays on Style. Cambridge & Londres: The MIT Press, 1995. p. 1-16.
LOBO, B.; WANDERNEY, Roney. Castelo dos horrores. São Paulo: Som Maior, 1969. Mídia Digital (01min 51segs). Disponível em: https://youtu.be/X5UMMe6yO-k?si=4lIxDPq8WMUJVmRb. Acesso em: 11 nov. 2025.
MAGNO,Jeaniel Carlos. Discurso, simulacro e verdade: uma análise sobre as práxis das relações de poder em 1969 e os reflexos disso no programa de atração Quem tem medo da verdade? In: LARANJEIRA, Álvaro Nunes. et al. (org.). 1969 a 1970: janelas do tempo. Porto Alegre, Editora Sulina, 2020.
O DESPERTAR da besta. Direção: José Mojica Marins. Produção: José Mojica Marins, Giorgia Attili e George Michel Serkeis. Brasil, 1970. 92min, sonoro, colorido.
PANNACCI, Renato. O cinema e a crítica de Jairo Ferreira. 2013.Tese (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2013.
PANOFSKY, Erwin. Arquitetura gótica e escolástica: sobre a analogia entre arte, filosofia e teologia na Idade Média. São Paulo: Livraria Marins Fontes Editora, 1991.
PANOFSKY, Erwin. Style and medium in the motion pictures. In: LAVIN, Irving (ed.). Three essays on style. Cambridge & London: The MIT Press, 1995. p. 91-126.
PIEDADE, Lúcio de Franciscis dos Reis. A cultura do lixo: horror, sexo e exploração no cinema. 2002. Dissertação (Mestrado). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2002.
SACCOMANI, Arnaldo. Guerra. São Paulo: Artistas Unidos/Rozenblit, 1968. Mídia Digital (02min 23segs). Disponível em: https://youtu.be/I1cV949x-i8?si=warFV_tmL9EPcm_S. Acesso em: 11 nov. 2025.
SCHAPIRO, Meyer. Style. In: KROEBER, Alfred Louis (org.). Anthropology Today: an encyclopedic inventory. Chicago: University of Chicago Press, 1953. p. 287-312.
SILVA, André Renato Oliveira. Zé do Caixão: um mito popular nos anos de chumbo. Letras em Revista, Teresina, v. 08, n. 02, p. 35-50, 2017.
UCHÔA, Fabio Raddi. Filmes de Carlos Reichenbach e Ozualdo Candeias no início dos anos 1980: sexualidades tangenciais. Expedições: teoria da história e historiografia, Goiás, v. 10, n. 2, p. 64-79, mai./ago. de 2019. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/revista_geth/article/view/9675. Acesso em: 2 jul. 2026.
VANUSA. Mundo colorido. São Paulo: RCA Victor, 1968.
VARÈSE, Edgar. Octandre. Londres: J. Curwen & Sons, 1924. Mídia Digital (07min 30segs). Disponível em: https://youtu.be/cLIOdiAzddY?si=KT8Dh2I-YtTuvtu8. Acesso em: 11 nov. 2025.
WOLLEN, Peter. From signs and meaning in the cinema: the auteur theory. In: BRAUDY, Leo; MARSHALL, Cohen (ed.). Film theory and criticism: introductory readings. 5. ed. Nova Iorque; Oxford: Oxford University Press, 1999. p. 519–535.
Téléchargements
Publiée
Numéro
Rubrique
Licence
© suzana reck miranda, Leonardo Frederico 2026

Ce travail est disponible sous la licence Creative Commons Attribution 4.0 International .
Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.








